Nada de maestro, compositor, pianista, cantor ou arranjador musical. Nem um dos criadores da Bossa Nova. O Jobim a quem me refiro era caixa do Banco do Brasil nos anos 70, na agência de Maceió.
Cara de areia mijada, óculos na ponta do nariz, timbre de voz grave, ele contava cédulas mordendo a língua. Vivia a pregar peças e a perturbar o juízo das mais variadas pessoas e ninguém sabia ao certo quando falava sério ou de brincadeira.
Certa vez, ao atender a um cliente que sacava alta quantia em dinheiro, de propósito ele trouxe um dos pacotes cintados de 100 cédulas com duas notas a menos e aproximou-se com o maço desfalcado na palma da mão, balançando, como se estivesse “pesando a mercadoria”:— Sei não… Deve tá faltando duas cédulas…— Então, conte o dinheiro, rapaz! — propôs o cliente.
Jobim simulou contar, recontar e, confirmada a falta, completou o pacote com duas cédulas retiradas da gaveta do caixa. O cliente arregalou os olhos e saiu dali impressionado, a ponto de comentar com os vigilantes na saída:— Esse rapaz é bom mesmo. Conhece dinheiro até pelo peso.
Diferente de Jobim era João, que nunca tocou violão nem cantou porque era desafinado até para assoviar. Chefiava um setor em outro pavimento, onde seus colegas o viam como alguém carrancudo, inflexível, que se jactava de ser professor de Física e profundo estudioso de objetos voadores não identificados.
Com ar de sabe-tudo, João contava que o astrofísico francês Jacques Vallee, em seu livro Anatomy of a Phenomenon, de 1965, teria sido o autor da primeira definição de OVNI. Em linguagem empolada, dizia que “eram manifestações de relatos da percepção de uma imagem visual, percebida pela testemunha como a de um objeto voador material, que possuiria pelo menos umas das seguintes características: aparência ou comportamento incomum”. 
Ao saber disso, Jobim pediu a um fofoqueiro — toda empresa possui os seus — para espalhar pelos treze andares da agência que tivera no passado uma experiência misteriosa com seres extraterrestres.
       Fez isso convicto de que seria procurado por João, a quem passou a evitar. Toda vez que João se aproximava dizendo que precisava conversar, Jobim arranjava uma desculpa qualquer e escapulia, atiçando ainda mais a curiosidade “científica” do colega.
Era esperado que o encontro acontecesse. Um dia, João ficou de tocaia na porta da agência, minutos antes do final do expediente:— Oi, Jobim, eu soube que você viveu uma experiência com OVNI e queria conversar sobre isso.— Olhe, João, eu prefiro não tocar nesse assunto. Ninguém acredita no que eu digo. — Por quê? Você sabe que sou estudioso…— Melhor deixar isso pra lá.— Peraí, Jobim, você vai ter que me contar como foi.— Pois bem, eu era fiscal de operações em Santana do Ipanema, no Sertão. Fui vistoriar umas lavouras de milho num baixio e como não conseguia chegar de carro lá embaixo, tive que descer o morro no lombo de um jumento.— Sim, e daí?— Não sei bem o que aconteceu. De repente, o tempo esfriou, mesmo com o solzão de rachar. Aí surgiu uma sombra danada de grande e desceu um troço cinza, parecia dois pratos emborcados.— E você, fez o quê?— Tá doido?! Pulei do jumento na hora e me escondi detrás de uma touceira de capim. Deu até vontade… Dor de barriga.— Sei…— Não demorou dois minutos saíram dois baixinhos olhudos, da cabeça grande, de dentro dos pratões e caminharam na direção do jumento.— E você, quietinho…— Claro! — E aí?— Um deles olhou pro jumento e perguntou: “uba-tatuba?”  O jumento deu uma gargalhada e respondeu: “tatuba-uba!”

A turma do “deixa-disso” teve que entrar em cena. João queria estrangular Jobim:— Você é moleque mesmo! Me fazer perder tempo com uma sacanagem dessas?— Eu bem que lhe avisei. Ninguém acredita no que eu digo!