Sentado à beira do açude de Quixeramobim, no Sertão cearense – terra natal de Antonio Tertulino, meu sogro –, vimos alguns meninos pulando do sangradouro:
– Por que não eu? – pensei alto, seguro de que minha mulher me demoveria da bravata, coisa de rapaz novo e encantado, com vinte e um anos de amor.
– Por que não? – ela me devolveu, já pronta para o clique com sua velha Kodak Instamatic.

Demorou uma semana o tempo entre o parapeito da barragem e a pancada na água da planta de meus pés. Não seria o disparo do coração ou a secura da boca que me fariam desistir do salto e de nadar até a margem para recuperar o fôlego.  


Quarenta anos depois, continua bem fresquinha em minha memória a overdose de endorfina (o hormônio do prazer) que tomou conta de meu corpo naquela manhã de sol, cerveja e piabas crocantes, temperadas com limão, sal e pimenta.


Todo prazer vicia e tudo aquilo que qualquer ser humano mais deseja é poder prová-lo de novo, se possível  elevando o sarrafo. Poderia, portanto, tentar adiante algo mais radical como o bungee jump, esporte onde se salta de um barranco, uma ponte ou coisa parecida, amarrado por um elástico. Ao ser alongado até o seu ponto máximo, tal elástico puxa o corajoso para cima.  


Acontece que não havia de onde retirar tanta coragem. Tratei logo de arranjar para mim mesmo a desculpa esfarrapada (Freud explicaria fácil!) de que não valeria à pena investir tanto em tão poucos minutos de gozo e pânico. 


Com o correr dos anos, esses rompantes passaram. No começo de 2012, porém, recebi de João Comaru,  à época aposentado havia mais de 10 anos, sua imagem sobrevoando de asa delta a cidade do Rio de Janeiro. Me contou que saltara da rampa do Morro da Pedra Bonita, pousando na praia do Pepino, em São Conrado. 


A asa delta, que usa como fonte de energia apenas as correntes de ar, está na imaginação de muita gente e era sonho relativamente fácil de realizar. Claro, na opção pelo chamado voo duplo, onde um piloto experiente conduz o “pássaro” novato pelo céu, diminuindo os riscos da aventura.Se a experiência vivenciada à beira do açude de Quixeramobim me deixara tão grata lembrança, imaginei como me sentiria após uma experiência dessa envergadura, com direito a imagens de vídeo para ilustrar as histórias que contaria a netinhos orgulhosos da façanha do avô.
Li o que pude a respeito desses voos e descobri que havia boas empresas especializadas no assunto. Escolheria uma das melhores em termos de segurança, ainda que não exista prazer que não diminua quando livre do perigo. 

Com tudo sob controle, inclusive o checkup médico anual e a grana no bolso para a estrepolia num final de semana no Rio, de repente as duas partes de mim – a que pesa, pondera, almoça e janta; e a que delira, se espanta e só se sabe de repente, como diria um certo poeta conterrâneo de meu pai –, entraram em rota de colisão e quase trocam tapas:– Faz sentido? – perguntava a primeira. – Se não vai me ajudar a voar, libere o céu – rebatia a outra.– Saltar ou não, o que muda? – Só se sabe depois.– E se não saltar, a frustração será grande?– Talvez sim, talvez não.– Tá bom. Então, vamos lá?– Não sei… Faz sentido mesmo?
Depois que passar a pandemia que estamos vivendo, quero voltar à beira do açude de Quixeramobim para ver a molecada de hoje pulando do sangradouro. Quem sabe encontre de novo por lá o que havia de melhor dentro de mim.
Difícil será encontrar resposta para algo mais ligado ao céu de Ícaro do que ao de Galileu: para onde foram as coisas que poderiam ter acontecido em minha vida e não aconteceram?