Há poucos dias compartilhou com amigos texto escrito por seu filho durante um voo que fizeram juntos, no começo do ano, de Salvador para Brasília. Texto que, segundo ele, discorre sobre uma manhã em que “Henriquinho se deixou diante do mar de Piatã”. Disse mais sobre seu filho, também músico e compositor: “… vive em Portugal, e meu coração, a um só tempo, feliz e aflito de saudades.”

Sob o título “Coração de Pedra”, Henrique Neto escreveu como se espalhasse notas musicais sobre um pentagrama:

“(…) Quando passo um tempo sozinho em frente ao mar sinto que reencontro alguma coisa que andava perdida. Acho que é uma certa sensação de transcendência que sua imensidão me causa e, ao mesmo tempo, por outra razão talvez ainda mais importante: o mar nunca se cansa de repetir seu balé. Milhões de anos repetindo o mesmo ritual, os mesmos movimentos e nada abala o desempenho do mar e seu prazer em somente existir. (Hoje em dia, com a quantidade ridícula de estímulos que temos a todo instante, ficamos com a impressão de que a repetição está associada necessariamente ao tédio. Que engano). Deve ser por isso que Caymmi gostava tanto de estar junto do mar. Ali, ele alimentava e renovava suas esperanças e se enchia de infinito que depois transformava em canções.

Gosto muito de ver ele vir macio lá de trás, subir suas ondas, quebrar na praia, fazer sua espuma, recuar sua água e depois repetir a coreografia. E por mais tempo que passe olhando pra ele não canso de olhar. Parece que nada é banal naquele espetáculo e tudo tem um significado: o som das ondas, o recuo e o avanço das marés, a espuma que surge com a quebra das ondas…

… O mar, com suas águas macias, não respeita (no melhor sentido da expressão) a força da rocha. Ele simplesmente envolve a pedra com a fluidez do seu bailado (…)”

***

Assim que fechei a leitura, quis dizer alguma coisa a Reco, mas eram pobres os adjetivos que me ocorreram para qualificar a beleza do texto, inspirado numa praia como outra qualquer, de águas um tanto frias e areia dura, amarelada, que conheço há anos.

Ah! Se ele, o autor do texto, soubesse das praias de Pajuçara e Ponta Verde — com sargaço e tudo! —, onde quase todo dia vejo o sol chegando bem devagar, calado, a render a lua e a trazer no colo uma manhã vestida de esperança.

Ah! Se eu soubesse expressar como ele, com um violão nas mãos, o que transborda no coração dessa gente resignada que passa por mim logo cedo e vai em frente mesmo sem ter com quem contar, surfando nas alegrias e agonias de cada dia.

Ah! Se eu soubesse, assim como o autor e o pai sabem, extrair de cordas sons tão caros e raros ao coração de quem se deixa diante do palco no Clube do Choro a lhes escutar. Nunca mais eu deixaria de tocar.

Como nunca aprendi a tocar um instrumento — nem cuíca, prato, reco-reco ou tuba —, só consigo tocar meia dúzia de corações quando escrevo. Já não me iludo mais: bandolim e violão, assim como piano e saxofone, representam muita areia pro meu carrinho de mão enferrujado.

Por isso, rendo minha homenagem inclusive aos tocadores de cuíca, prato, reco-reco e tuba. No caso da tuba, aliás, confesso que até hoje fico intrigado quando vejo aquele sujeito, na parada militar ou no coreto da praça, carregando um treco maior do que ele apenas para, de vez em quando, soprar um ofegante “fum-fum”.

Ainda bem que os filhos nem sempre puxam ao pai.