Conheci o músico e compositor Altamiro Carrilho (1924 – 2012) na manhã de uma sexta-feira, em 1998, no Recife. À noite, ele exibiria sua arte com a flauta transversal para um grupo de clientes especiais do Banco do Brasil, no auditório do prédio-sede, no cruzamento da Av. Rio Branco com o Cais do Apolo, centro da capital pernambucana.
Com mais de 100 discos, fitas e compact discs gravados em nada menos que 60 anos de carreira, Altamiro Carrilho, junto com outros grandes instrumentistas – Armandinho, Dominguinhos, Paulinho Nogueira, Nivaldo Ornellas, Raphael Rebello, Wagner Tiso etc. -, dois anos antes havia participado do Projeto Tom Brasil, ação de marketing cultural que resultou na gravação e distribuição de caixas-brindes com obras primas daquele timaço de craques da Música Popular Brasileira.
Ao recebê-lo e conversar por mais de hora, percebi que, antes do famoso instrumentista, estava diante de um homem em paz consigo mesmo, ainda entusiasmado, aos 74 anos, com aquilo que fazia, espirituoso, bem humorado, além de protagonista de boas histórias.
Contou que certa noite, sofrendo muitas dores por força de uma apendicite aguda, teve que ir às pressas para o hospital particular mais próximo de sua casa, onde se submeteu a uma cirurgia de emergência. Até desfalecer sob efeito da anestesia, não pensava noutra coisa a não ser sobre como pagaria os honorários do cirurgião, dado que vivia financeiramente sufocado,  como quase todos os músicos brasileiros.
A primeira pessoa que viu ao acordar foi o médico: “doutor, e agora, como vou pagar o senhor?” O médico, sorrindo, teria dito: “o senhor já me pagou há muito tempo e ainda lhe devo troco. Escuto seus discos desde criança e aprendi a gostar de música ouvindo sua flauta maravilhosa”. Óbvio, todo exagero deve ser perdoado quando se trata de gratidão. 
 

Quando lhe dei de presente uma caneta de luxo com a logomarca do banco, recordou como tornou-se conhecido internacionalmente na década de 60, depois de apresentar-se em vários países: Alemanha, Egito, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, México, Portugal e União Soviética, entre outros.

Numa turnê em 1963, Boris Trisno, um dos mais conceituados maestros russos, após assistir a uma extraordinária exibição dele em Moscou, afirmou que “havia visto um dos músicos mais afinados do mundo e um dos melhores solistas de flauta do planeta”. Resultado: precisou estender a permanência por três meses nas repúblicas soviéticas, por conta de vários convites recebidos para outros shows.

Um dia antes de retornar para o Brasil, o maestro o convidou para o café-dá-manhã, fechando a temporada de forma singular. O russo, encantado com o talento de um dos principais intérpretes de BrasileirinhoUm a Zero e Urubu Malandro, ofereceu-lhe uma velha caneta-tinteiro, “de estimação”, com inusitada dedicatória: “com esta caneta eu assinei o diploma de alguns dos maiores músicos de meu país; ela agora é sua.”
Ao desembarcar no Galeão, no Rio de Janeiro, ainda comovido com tudo o que vivenciara em terras tão diferentes da sua, Altamiro Carrilho tomou um choque quando percebeu que sua mala havia sido violada. Pior, à época ainda não havia câmeras de segurança para flagrar o gatuno que lhe furtou três camisas, duas calças, um par de sapatos e a velha caneta-tinteiro que, por precaução, escondera entre as roupas, temendo perdê-la se a trouxesse no bolso.

Decepcionado e triste, um dos mais importantes divulgadores do gênero musical de maior brasilidade – o choro ou o chorinho – tomou um táxi, seguiu no rumo de casa e, sem fome ou sede, trancou-se em seu quarto, onde chorou até esgotar seu estoque de lágrimas.

Que fim levou a caneta do flautista desaparecida há mais de meio século? Quando nos conhecemos, 35 anos depois do episódio no Galeão, Altamiro Carrilho acabou esquecendo na sala onde estávamos a caixinha, revestida de veludo azul, contendo a luxuosa caneta que lhe dei de presente. Para mim, agora faz todo sentido. “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem…” (Fernando Pessoa)