Nos anos 60, pelo menos uma vez por ano, papai, eu e meus irmãos esperávamos na plataforma da estação ferroviária de Patos (PB) o facho de luz e o apito do trem que traria nossa avó materna – mãe, para diferenciar de mamãe e porque nunca gostou de ser chamada de vovó – para ficar conosco algumas semanas no Sertão, longe do Sítio Jacaré, onde morava às margens do Rio Paraíba, na zona rural de Pilar (PB).

Vinha como de costume, com o coração dividido entre matar as saudades da filha e dos netos e deixar em casa seu primo e marido, nosso avô, que não arredava o pé do chão onde nascera por nada nesse mundo. Sofria também por ter que largar por alguns dias o tititi com que distribuía milho para galinhas e pintos em seu quintal.

Como não podia nos oferecer presentes caros, trazia sempre uma sacola com algumas broas escuras e cheirosas, embrulhadas em papel grosso, a que dava nome de “bolacha de leite”. Ela nunca concordou com os nomes pelos quais aquela iguaria que levava para seus netos era chamada na região: sorda, soda preta, bolacha preta, engasgador ou mata-fome.

Muito tempo depois, morando em Brasília (DF), já no final dos anos 80, presenciei meus filhos, entre beijos e abraços com minha sogra, receberem alguns brinquedos eletrônicos caros, e concluí que a felicidade deles em nada diferia da minha quando diante das tais bolachas de leite. Na semana seguinte, contudo, recebi a notícia de que Mãe de Jacaré havia falecido de repente e que já fora até sepultada. Lembro como hoje do travo em minha garganta e de algumas lágrimas que molharam os papéis com que trabalhava.

Ano passado, perambulando na Feira de Ceilândia, no Distrito Federal – espaço criado, em 1971, para reduzir a ocupação de áreas próximas ao Plano Piloto descobri que a bolacha que tomou muito mais doce minha infância ainda hoje é fabricada artesanalmente no Nordeste e não leva uma gota de leite sequer. E feita de farinha de trigo, mel de rapadura, manteiga, cravo, canela e gengibre.

Já na primeira mordida, a mesma sensação prazerosa de meio século atrás, mas com um ingrediente adicional: a lembrança do carinho com que Mãe de Jacaré, com sua marrafa nos cabelos longos, o olhar cintilante sob duas sobrancelhas espessas e o sorriso iluminado que me fazia esquecer todos os aperreios de criança, abraçava-me apertado até doer às costelas.

Sabe-se que a angústia é uma sensação de vazio no peito, uma dor difusa que alcança a alma, aperta o coração, embrulha o estômago, às vezes mexe até com os intestinos, mas nunca se sabe de onde vem. Chega quando menos se espera, acompanhada de outros maus sentimentos tais como o medo, a ansiedade, o desassossego e a insegurança. Mas posso garantir que até hoje a indústria farmacêutica não criou remédio para essa agonia tão poderoso quanto a bolacha de leite de Mãe de Jacaré.