Aos 12 anos, diante da TV em preto-e-branco, vendo a final da Copa do Mundo 1970, na Rua da Vitória, bairro da Levada, em Maceió(AL), eu não sonhava ser Pelé, Tostão ou Jairzinho. Queria mesmo é ser Carlos Alberto Torres, habilidoso, clássico, que sabia como ninguém retomar a bola dos adversários e sair jogando com elegância, e que beijou e levantou a Taça Jules Rimet após o chute fulminante com que fechara os 4×1 contra a Itália. Se nunca consegui ser jogador de futebol, restou-me o consolo de, quatro anos depois, iniciar minha carreira profissional como office-boy em um banco.

Ainda bem que pude contar esta história, 43 anos depois, ao próprio capitão do tricampeonato mundial, em junho de 2013, quando o conheci no Estádio Morumbi, em São Pulo, no lançamento do projeto “Brasil… um país, um mundo”, exposição itinerante de acervo formado por peças históricas, como camisas usadas em jogos oficiais, troféus, medalhas e chuteiras, que passaria pelas 12 cidades-sede da Copa do Mundo 2014.

Fanático por futebol desde criança, daqueles que “via” tudo pelo rádio e nas edições semanais da revista “Placar”, comentei com Carlos Alberto Torres que, em 1970, além dos 22 campeões mundiais que foram ao México, ficara no Brasil pelo menos outro elenco impressionante de craques. Ele concordou e, juntos, começamos a “escalar” quem seriam os titulares e reservas alternativos: Ubirajara (Cláudio), Fidélis (Murilo), Scala (Jurandir), Djalma Dias (Roberto Dias) e Rildo (Paulo Henrique); Zé Carlos (Nei Conceição) e Ademir da Guia (Bráulio); Natal (Zequinha), Alcindo (Toninho Guerreiro), Dirceu Lopes (Eduzinho) e Abel (Lula).

Conversa vai, conversa vem, provoquei o Capita, como carinhosamente era chamado: “… é preciso certa dose de sorte, alem de talento, para se dar bem no futebol. Você, por exemplo, por jogar no Santos, nunca precisou enfrentar Edu, um dos melhores pontas esquerdas do futebol brasileiro. Já o coitado do Pablo Forlan, do São Paulo…”. Ele sorriu e rebateu de primeira, provando que o topo da sabedoria é alcançar a humildade: “Você só diz isso porque não sabe o trabalho que me dava Abel nos treinamentos. Hoje, não consigo mais ficar de pé nem 20 minutos porque meus joelhos ‘apodreceram’ de tanto drible que levei dele, desde quando eu jogava no Fluminense e ele, no Ameriquinha.”

Há dois anos, numa manhã de outubro como outra qualquer, confesso que quis chorar quando me contaram que havíamos perdido essa lenda, no esplendor de seus 72 anos, vítima de enfarte fulminante. Comovido, me veio na hora Mário Quintana: “uma vida não basta ser vivida; ela precisa ser sonhada…”

Por Hayton Jurema da Rocha
Bancário aposentado, economista com pós-graduação em Marketing pela PUC-Rio(RJ)