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“Acho que na crise a pessoa passa a beber mais. Não sei se é para poder enfrentar, para poder esquecer. Enquanto uns choram, outros vendem lenço. Eu vendo alento”, diz, abrindo um sorriso, o empresário seridoense Vidalvo Costa – mais conhecido como Dadá. O produtor da cachaça artesanal Samanaú viu seu empreendimento crescer 37% em um 2015 de recessão na economia brasileira.

Não satisfeito, faz projeções ousadas para o ano que se inicia. Quer dobrar a venda da aguardente, que hoje chega a cerca de 25 mil caixas por ano – ou 300 mil garrafas – para chegar a 50 mil. Para tanto, está assinando contratos e concluindo outros preparativos para começar a explorar novos mercados. Além de buscar uma maior entrada no Sudeste, vai passar a exportar o produto. Já há acordos praticamente concluídos com representantes na Nigéria e nos Estados Unidos. O empresário abriu uma representação na América do Norte e vai terceirizar o serviço. Venderá o produto para o representante, garantindo que as caixas cheguem até lá, e este vai se encarregar da comercialização da bebida, explica.

A exportação, de acordo com o empresário, passa pela necessidade de compensar o alto custo com tributação. A soma dos impostos federais e estaduais representa 56% do preço da cachaça e só está menor, conta, devido à inscrição da empresa no Programa de Apoio ao Desenvolvimento Industrial do Rio Grande do Norte (Proadi), que isenta em até 75% o valor do ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Com isso, a cachaça produzida em Caicó paga 37% em impostos.

“O ideal para qualquer produtor é vender metade para o Brasil, metade para o exterior. Só assim você consegue neutralizar a alta carga tributária que incide no Brasil. Quando você exporta, adquire crédito. É o sonho de qualquer produtor e estou sonhando. Espero que dure todo o ano”.

Apesar do aumento do custo de produção devido os reajustes dos insumos, o empresário afirma que encontrou alternativas para não repassá-lo ao consumidor. Ao longo dos 11 anos de produção, ele afirma que só aumentou o preço da aguardente uma única vez, em 10%. Esta é uma das razões que justificariam o crescimento da Samanaú. “Por ser um produto de Caicó, da região do Seridó, de tradições da culinária, um povo de fé e religiosidade, a cachaça se divulgou bastante no Brasil e no estado. E nesse tempo todo só demos um aumento. Procuramos tirar as despesas, esse é um grande segredo. A gente enfrentou toda essa crise sem repassar nenhum aumento e com isso temos hoje uma das cachaças mais baratas do estado e do Brasil”, pontua.

A produção que já chegou a contar com 36 empregados hoje tem apenas seis. Dadá diz que não houve demissões em 2015, pelo contrário, foram contratados mais dois empregados. Porém, anos atrás, o empresário optou por mecanizar a produção o que reduziu a necessidade de grande parte da mão de obra. A cachaça é produzida em alambiques de cobre. Dadá ressalta que outras pessoas são empregadas na produção de cana-de-açucar, nas vendas do produto, etc.

O empresário também diminuiu gastos com embalagens, comprando pela metade do preço que comprava na China. A gente trazia embalagem que custava um dólar. Estamos conseguindo comprar aqui no Brasil com menos de um dólar. Embora tenham aumentado alguns insumos, outros conseguimos diminuir”, explica.

Desafio

Exportar ainda é um grande desafio para o produtor nacional, de acordo com Dadá Costa. Apesar de o mercado nacional produzir cerca de 1,5 bilhão de litros por ano, apenas 1% desse total é exportado. O país é o grande consumidor da cachaça – a terceira bebida destilada mais consumida no mundo, segundo o Programa Brasileiro de Desenvolvimento da Aguardente de Cana, Caninha ou Cachaça (PBDAC). Cerca de 75% da produção é proveniente da fabricação industrial e 25% artesanal.

De acordo com o empresário, a bebida ainda não é bem conhecida pelos estrangeiros, que geralmente limitam-se a consumi-la em forma de caipirinha. Ensiná-los a apreciar o produto, defende, seria uma boa maneira de gerar uma nova clientela.

Seca ameaça certificação da cachaça

A construção da Barragem Passagem das Traíras, nos idos de 1994, perenizou o Rio Seridó e a produção de cana-de-açucar na região. Dadá Costa, ex-prefeito e deputado estadual que havia repensado sua vida e desistiu da política, passou a produzir cana em 15 hectares da fazenda Samanaú. Assim permaneceu ao longo dos anos.

Em 2015, porém, toda a plantação foi perdida por causa da seca que aflige a região incessantemente ao longo dos últimos quatro anos. Para não deixar de fazer a cachaça, o empresário seridoense se socorreu da produção de cana de açúcar orgânica, como a dele, da Paraíba. A produção do perímetro irrigado do vale do Sabugi também é utilizada, por vezes.
O empresário acredita que suas reservas só serão suficientes para mais um ano e, por isso, acredita que terá que abrir mão do certificado de produto orgânico (que não conta recebe adubo químico e outros tipos de produtos semelhantes).
“Se esse ano não chover, não fizer água nas barragens, vou deixar a certificação. Vou comprar cana de outros produtores”, salienta. Apesar disso ele avalia que o mercado também pode ganhar com as dificuldades encontradas na crise hídrica e econômica. “Acredito que nessa fase que a gente está vivendo, a gente perde, mas também ganha. A gente perde algum investimento, mas ganha em idéias e soluções criadas para superar”, frisa.

Um novo produto que surgiu neste período, por exemplo, é a vodka Samanaú, que é produzida pelo empresário. Dadá Costa também resolveu fazer uma homenagem a cachaças centenárias do Rio Grande do Norte, como as tradicionais Murim e Murim Mirim, do municípoio de e Canguaretama. A família do fundador, Lindolfo de Oliveira Sales, o autorizou a produzir e vender a aguardente. Costa detalha que apesar de centenária a marca nunca havia sido registrada em marcas e patentes. Ele se encarregou disso.

Açucarada

A cana de açúcar sertaneja é mais doce que a produzida no litoral – onde se concentrou a produção brasileira desde o início da colonização brasileira, a partir de 1530. A porcentagem de sacarose, que normalmente é de 24%, chega a 26% no Seridó. Para Vidalvo Costa, que fez um curso em São Paulo antes de passar a produzir no interior potiguar, essa diferença ocorre devido à diferença de temperatura entre o dia quente e noite fria da região. “Esse é um grande diferencial, mas, para mim, o segredo é higiene”. Ele explica que a fermentação da cachaça ocorre de forma muito rápida e gera um ambiente propício para a proliferação de bactérias. “Cachaça como qualquer outro alimento exige um grande cuidado com higiene. A acidez permitida é de até 150 graus; a gente trabalha em torno de 30”, pontua.

Na produção artesanal, depois de colhida manualmente, a cana de açúcar madura é moída num prazo máximo de 24 horas. O caldo da cana, conhecido como mosto, passa por um processo de decantação e filtração, de acordo com Dadá.

Em seguida, o mosto segue para a fermentação. A cachaça é obtida através da destilação em alambiques de cobre. Por fim, o produto passa pelo processo de envelhecimento em barris de carvalho e louro. A cachaça potiguar já ganhou prêmios nacionais e internacionais. A vodka que é produzida há cerca de um mês, passa pelo processo de destilação três vezes.

Fonte: novojornal.jor.br