Algumas pessoas dizem que bebem para relaxar após um dia de trabalho duro. Outras dizem que bebem para comemorar algum objetivo alcançado. Outras bebem apenas socialmente, pelo prazer de passar algum tempo com os amigos “jogando conversa fora”. Embora essas explicações sejam corretas, a verdade é que há muitas outras atividades divertidas que se pode dividir com os amigos, mas nenhuma tão popular quanto o hábito de beber. Portanto, deve haver algo de especial com o álcool.

O Dr. Jonathan Rowson, enxadrista e Doutor em Filosofia, Política e Economia pela Universidade de Oxford, encontrou quatro principais explicações para o consumo de álcool pelos humanos. Elas vêm de quatro distintas áreas de estudo: neurologia, psicologia, antropologia e filosofia.

Os cientistas que estudam o cérebro humano afirmam que o homem bebe porque se sente incomodado com o fluxo de pensamentos. O álcool atua no cérebro dificultando a comunicação entre os neurônios, de modo que, sob seu efeito, o cérebro reduz o esforço de buscar sentido no mundo. É como se o álcool aliviasse o cérebro de um peso, dando-lhe alguns momentos de descanso. A pessoa que ingere uma certa quantidade de álcool sente uma melhora de humor, porque o foco de suas ideias sai das preocupações de longo prazo e se volta para o que acontece no momento. Creio que isso pode ser positivo para a saúde mental, pois seria assim como um tipo de meditação.

Os psicólogos afirmam que bebemos para escapar de nós mesmos. Essa afirmação se baseia em pesquisas que mostram que, sob o efeito do álcool, as pessoas falam menos de si e procuram o contato direto com as pessoas ao redor. Apenas quando a quantidade de bebida ultrapassa um certo limite, o bebedor passa a ficar alheio e desconectado do mundo. Portanto, a bebida na quantidade certa pode ser um ótimo catalisador para as interações sociais. As pessoas sentem prazer em estar juntas, ficam mais alegres e deixam de pensar apenas em si. Creio que isso é também positivo para a saúde mental.

Os antropólogos acreditam que as pessoas bebem porque é conveniente para elas se comportarem como bêbados, ou, mais precisamente, na forma que a sociedade espera que os bêbedos se comportem. Assim, nós beberíamos para praticar um certo comportamento que nos parece conveniente, mas que a sociedade só tolera nos bêbados. As crenças culturais a respeito dos efeitos do álcool seriam a justificativa para algumas transgressões ligadas à bebida. Creio que essa seja uma das explicações possíveis para o hábito de beber, contudo, ela se aplica apenas a uma pequena quantidade de casos. Não é nada saudável usar a bebida para justificar transgressões.

Alguns filósofos afirmam que as pessoas bebem para ter uma experiência espiritual secular. O enfraquecimento da consciência e o relaxamento do sistema nervoso central, provocados pelo álcool, fariam as pessoas experimentarem um sentimento de unidade e transcendência. As pessoas procuram um sentido para a vida e creem que não podem encontra-lo se estiverem ocupadas com os problemas do dia a dia. O estado de semiconsciência provocado pelo álcool daria às pessoas um vislumbre da transcendência que procuram, ou, pelo menos, a ilusão de tê-la encontrado.

Há muito tempo eu tinha conhecimento de que há relação entre misticismo e consumo de álcool. Há evidências de que as religiões primitivas usavam várias drogas psicoativas para induzir o transe e as alucinações, entre elas o álcool. Mas, nas poucas vezes em que passei dos limites na cachaça, jamais senti nada além de tontura e ressaca. Apesar disso, eu creio que essa explicação tenha um fundo de verdade.

Eu creio que todas as explicações acima estão corretas. Há muitas razões para se tomar uma dose. É isso o que torna o álcool especial. Essas inúmeras razões criam uma enorme variedade de bebedores.

Mas, o leitor pode estar perguntando: por quê cachaça?

A luta para que a cachaça seja valorizada e reconhecida como um bem cultural do povo brasileiro, embora muitos não se sintam confortáveis em admitir, é parte da resistência contra o domínio cultural exercido pelas grandes potências econômicas estrangeiras.

O Brasil é um pais periférico que faz um esforço muito grande para ser aceito no mundo. A elite dirigente é fascinada pelo modo de vida europeu e norte-americano. Seus filhos são educados nas escolas dos Estados Unidos e da Europa e voltam ao País para ocupar os mais destacados cargos na Administração Pública e privada, trazendo para cá o modo de vida americano e europeu.

Obviamente há, também, uma enorme pressão de parte das instituições desses países, para que os brasileiros adotem seus valores e passem a consumir os bens culturais lá produzidos. Isso é feito por meio de intervenções diretas, usando todos os meios possíveis, desde a propaganda até a corrupção. As instituições sociais brasileiras têm de adotar os valores das sociedades europeias e americanas e promover o consumo e a venda de seus produtos. Não há alternativa.

No comércio de bebidas essa dominação cultural é bastante óbvia. O indivíduo que é viciado em álcool é chamado de “cachaceiro”, mesmo que jamais tenha bebido cachaça. As pessoas que bebem vinho e uísque não correriam o risco de se tornarem alcoólatras, pois seriam “gente de bem”, que consomem um produto caro e nobre, importados dos países europeus. Há uma evidente distorção da realidade, baseada no preconceito de que o vício do álcool ocorre apenas com pessoas pobres, das camadas inferiores da sociedade, que bebem cachaça.

Como se pode inferir das explicações de neurocientistas, psicólogos, antropólogos e filósofos, o uso do álcool tem várias explicações, mas nenhuma delas está vinculada à classe social do bebedor ou com o tipo de bebida que ele ingere. A verdade é que o abuso do álcool ocorre com qualquer tipo de bebida e em todas as classes sociais.

Todas as bebidas alcoólicas são uma mistura de várias substâncias, das quais mais de noventa e sete por cento é apenas água e etanol. A preferência por determinado sabor e aroma é apenas uma questão de hábito. Considerar uma bebida mais nobre que outra é apenas uma crença cultural, sem fundamento científico.

Se não houvesse outras razões para beber cachaça, apenas o combate ao preconceito já seria uma justificativa suficiente para que eu preferisse esse produto. Mas, para que esse combate seja eficaz, é necessário que a cachaça seja aceita pelos brasileiros, já acostumados ao sabor e ao aroma das bebidas estrangeiras.

A trincheira que escolhemos foi essa. Uma confraria que reúne bebedores de cachaça, para disseminar entre os brasileiros o hábito de beber cachaça e para estimular a produção de cachaças de qualidade, de modo que o consumidor não tenha nenhuma desculpa para preferir os destilados estrangeiros.