A cachaça, o principal ingrediente da nossa caipirinha, após décadas de desvalorização, é hoje uma bebida internacionalmente reconhecida. O destilado de cana tem importância econômica, social e cultural para o país e carrega um potencial atrativo para turistas interessados em descobrir sabores genuinamente brasileiros.

Contudo, nem sempre a cachaça partilhou desse prestígio. Durante décadas, a elite cafeeira do século 19, com hábitos associados aos valores de requinte vindos da Europa, categorizava a bebida como de baixa qualidade, atrelada ao consumo das classes menos privilegiadas. No início do século 20, o destilado passou por um processo de valorização quando a Semana de Arte Moderna resgatou características e símbolos nacionalistas.

Outra iniciativa que contribuiu com o seu reconhecimento foi o Decreto n° 4.072/2002 que regulamentou a Lei n° 8.918/1994. No texto, se protege a propriedade da denominação da cachaça como aguardente de cana típica e exclusivamente produzida no Brasil. A bebida também conquistou o interesse da academia no desenvolvimento de estudos, fomentando, gradativamente, a especialização profissional daqueles que atuam no setor.

Atualmente, dados do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac) indicam que o destilado é o segundo mais consumido no país, e o terceiro no mundo. A capacidade produtiva instalada hoje, em fronteiras nacionais, é de 1,2 bilhão de litros por ano. São cerca de 4 mil marcas registradas e mais de 600 mil empregos gerados, direta e indiretamente.

Potencial turístico

De acordo com o especialista Jairo Martins, a cachaça faz parte da construção da sociedade brasileira, estimula a hospitalidade e reflete elementos do país como folclore, religiões, classes e, inclusive, problemas sociais. Sua valorização, nacional e internacional, contribui com o turismo local ao possibilitar que as relações pessoais se estreitem e formem vínculos com os destinos turísticos e seus residentes.

O grande fluxo de recursos e pessoas que grandes eventos têm atraído para o Brasil é uma oportunidade de promover a bebida para o público estrangeiro. De acordo com o documento Agronegócio – fabricação de cachaça, da série Ideias de Negócios para 2014, do Sebrae, micro e pequenas empresas do segmento devem estimular a atividade turística, promovendo ao visitante um local apropriado de recepção e degustação, acompanhamento do processo produtivo do destilado e venda de garrafas e souvenires.

Outra orientação é sobre o fornecimento do produto à cadeia gastronômica, que deve contemplar principalmente bares, restaurantes e casas noturnas de cidades que sediarão as competições. Feiras e congressos são outro canal de visibilidade para os fabricantes de cachaça, assim como as ações setoriais de gastronomia, agronegócios e turismo.

Estimular eventos específicos sobre o destilado, vinculados a negócios ou gastronomia, é uma das maneiras de desenvolver o potencial turístico da bebida. E, claro, para acompanhar esse cenário de expansão, a especialização e o aprimoramento de profissionais são cada vez mais necessários.

Mercado mundial

Em 2013, Estados Unidos e Colômbia reconheceram a cachaça como um produto genuíno brasileiro. Para que uma bebida receba essa denominação nesses países, é preciso, além de atestar a origem, estar em consonância com os padrões oficiais de identidade e qualidade aplicados ao destilado no Brasil.

No entanto, é a Alemanha o país que mais importa a cachaça: US$ 2,3 milhões em 2012, seguida pelos Estados Unidos, com US$ 1,8 milhão, de acordo com os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC).

A música, o carnaval, o futebol e a praia compõem a imagem positiva do Brasil para os alemães e contribui com o êxito da bebida no país. Os próprios brasileiros que vivem lá e oferecem caipirinha em suas festas privadas ou, ainda, montam quiosques nos eventos populares para a venda direta ao público são os principais promotores do destilado.

 

*Artigo de autoria de Juliana Reis, sommelière, gestora da área de bebidas e serviços de restaurantes do Senac São Paulo. Especialista em negócios internacionais e mestranda em hospitalidade, atuou por quase uma década em hotéis estrelados dos Estados Unidos, Caribe e Brasil. Foi sommelière do Hotel Grand Hyatt São Paulo, fez estágio na colheita de 2007 no Château Le Bon Pasteur em Pomerol, propriedade de Michel Rolland. Já percorreu inúmeras vinícolas na América do Sul, Europa e América do Norte, bem como participou de vários eventos nessas regiões.